

Veneno Bento é o quinto álbum solo do compositor e multiartista pernambucano Armando Lôbo. O trabalho faz uma leitura simbólica e inovadora do sertão nordestino, sua força solar, a religiosidade, a música dos cantadores, das feiras, a vastidão dos espaços, a abertura para o devir através da música. As canções usam estilos regionais como aboio, xote, baião e outros, sempre de maneira ousada. Uma versão renovadora de “A Morte do Vaqueiro” - um clássico de Luiz Gonzaga – é parte do álbum, que propõe um desfile de arquétipos, tendo como maior ponto de referência a figura do humana e estética do vaqueiro.
O álbum é dividido em duas playlists, uma popular arrojada e outra com música contemporânea de concerto. A formação instrumental das faixas é bastante inusitada, buscando um espectro sonoro agressivo e brilhante, como um excesso solar.
Na parte popular do álbum, as letras das canções escapam da obviedade, usando uma abordagem por vezes filosófica e expressionista, de alta voltagem poética. O material musical de influência popular não é usado de forma previsível em nenhum arranjo, pois a técnica composicional de Armando é bastante diversificada em nuances polifônicas e timbrísticas. A playlist erudita fecha o álbum com 4 peças de formação contrastante, todas fazendo referência ao universo nordestino.
PLAYLIST
1
música popular

SERTÃO SATORI
– Eletrobaião. Letra combina simbolismo religioso hindu com uma
imagética sertaneja.
Correndo na mata
Assum preto mudo
Sem olhos, nem asas
Novilho corcundo
Imundo Sidarta
Vagando no mundo
No mundo, êêê ôôô
A gula em degola
O golpe em curso
O tigre humilhado
Em pele de urso
Um sol egocêntrico
Sem firmamento
Sem prumo, êêê ôôô
A casa na sombra
Salgueiro ferido
A fera domada
A lama no cio
Silêncio gritando
E o pássaro rindo
Da terra, da terra
A lua estalando
Badalo de língua
O olho se abrindo
Na fresta infinita
Orgulho banido
E o sal se espalhando
Na terra
O som da montanha
Ecoando na vespa
A voz nas narinas
Migalha na mesa
O nó infinito
E o lótus florindo
Na terra

A FERA DO SOL
– Harmonia densa sobre pulsação em 7x8. A letra é um poema de
tons expressionistas. Luiza Fittipaldi se junta a Armando nos vocais.
Eram constelações
Mudos cortes de luz
Pesadelo do espaço
Uma alucinação, aparição
Demônio que explodiu no ar
Berram escorpiões
Vesgos da cor de pus
Cobras vestindo andrajos
Lua do sertão rachando o chão
Chacina de fazer chorar
Clarão de encandear
Conflagração, cegos vão
Retinas espatifar
Verão de envenenar
De cavalgar (de castigar)
A fera do sol



VENENO BENTO
– Parceria entre o compositor mineiro Rodrigo Zaidan e Armando Lôbo.
Harmonia dissonante e letra que revela o sentido poético do álbum.
Veneno bento, veneno
Veneno bento, veneno
Veneno bento, veneno
Veneno!
Quem desafiar o mundo
Terá lugar à beira
do precipício
Ganhará a imensidão
Quem ausculta no amor
O relinchar da égua morta
Bebe à cavalaria
Uma dose cavalar
Veneno bento, veneno
Veneno bento, veneno
Veneno bento, veneno
Veneno!
Atravessará a terra
Um asceta insolente
Deflagrando epidemias
Pois Deus sabe o que faz
Num tecido de fumaça
Veda o tempo suas cortinas
Escondendo o ser no coito
Do burro com o mascate
Vendendo unguento, vendendo
Vendendo unguento, vendendo
Vendendo unguento, vendendo
Vendendo!
Quem pensou que o nada existe
Na ira dos profetas
Penteados e pedantes
Viu vento canalizado
Rouco o grito do osso
Prenhe da mesma pedra
Astrolábio da boca
Que navega o outro mundo
O excremento do mito
Veneno bento, bendito
Veneno bento, bendito
Veneno bento, bendito
Bendito
Bendito, bendito
Veneno
A MORTE DO VAQUEIRO
– Clássico do repertório de Luiz Gonzaga em versão novíssima
e inusitada. O backing vocal inspirado no aboio é de Sue Ramos.
Numa tarde bem tristonha
Gado muge sem parar
Lamentando seu vaqueiro
Que não vem mais aboiar
Não vem mais aboiar
Tão dolente a cantar
Tengo, lengo, tengo, lengo
Tengo, lengo, tengo
Ei, gado, oi
Bom vaqueiro nordestino
Morre sem deixar tostão
O seu nome é esquecido
Nas quebradas do sertão
Nunca mais ouvirão
Seu cantar, meu irmão
Tengo, lengo, tengo, lengo
Tengo, lengo, tengo
Ei, gado, oi
Sacudido numa cova
Desprezado do Senhor
Só lembrado do cachorro
Que inda chora sua dor
É demais tanta dor
É demais tanta dor
A chorar com amor
A chorar com amor
É demais, é demais..
Não vem mais aboiar
Tão dolente a cantar
Tengo, lengo, tengo, lengo
Tengo, lengo, tengo
Tengo, lengo, tengo, lengo
Tengo, lengo, tengo
Ei, gado, oi...

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ABISMO
- Aboio progressivo psicodélico. A letra escatológica é um soneto inspirado na poesia de Ariano Suassuna.
Quando eu chegar procure um precipício
Tão fundo que transcenda o infinito
Sem leito, de ninguém ficar aflito
No alto, onde não haja um deus propício
Se um dia um vaqueiro encurvá-lo
Usando a força de um esfomeado
Com toda paz de quem já foi marcado
Cantando no abismo em seu cavalo
Conquistaremos o que está perdido
É tão estranho viver sem entranhas
A língua cobra esporas do sentido
A rês retornará do fim do mundo
O aboio rachará outras montanhas
E a onça luzirá no céu profundo
DISPARO
– Xote de harmonia sofisticada e letra metrificada à moda dos repentistas. Surama Ramos divide vocais principais com Armando.
Vaqueiro e cavalo-marinho
Cordel, venturoso espinho
O sertão sempre foi mar
Os poetas eram burros
Os profetas eram cegos
Cientistas erram sérios
Erram sérios, eram sérios
Cantadores são jangadas
Violeiros marujada
Cangaceiros de Netuno
Navegantes importunos
Oportunos importunos
Vaqueiro e cavalo-marinho
Cordel, venturoso espinho
Carpideiras de fachada
Em sereias disfarçadas
Coronéis que têm cardumes
São baleias em estrume
Em espumas de estrume
A caatinga e o sargaço
São amantes no espaço
No azul-marinho céu
Onde ouriço e cascavel
Bailam como assassinos
Vingança de seca, ressaca
Carcaça de peixe-boi
A carne da terra rachada
A vaga na pele do mar
São rugas em sangue salgadas
(Rapinas em eucaristia)
Rebanhos magrelos na lua
Milagram urrando marés
Merecem viver para sempre
Merecem viver para sempre
Vegetam na vegetação
O repente é pescaria
De palavras e solfejos
Com a rede de sentidos
Oceano de improviso
Redivivo, revivido
O sertão sempre foi mar
Os poetas são malucos
Os profetas mentirosos
Cientistas rancorosos
Rancorosos, rancorosos
Vaqueiro e cavalo-marinho
Cordel, venturoso espinho
Vaqueiro marinho a cavalo
Disparo furando o vazio
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INCELENÇAS
– Canção do escritor e compositor paulista Luciano Garcez. A letra reflete
em plano sertanejo o amor cortês medieval. Cantada por Surama Ramos, com Armando nos vocais de apoio.
àquele corpo luzente
vou carpir “rosária dor”
gume que dorme no talho
meu gozo sem agasalho
a murcha romã do amor
- meu “benzim” passou doente
não me viu cuspir a flor.
passarinho expiado
minha fé enferrujou
se chorar, acha lugar pra ir
lágrima de Lava-Pés levei
Em jarros alívios pôr
se lhe peço o que não valho
o orvalho flore a dor
tava doido de doído
era ardor enviesado que vinha
avoado e, antes, subia...
no vapor do São Francisco
reza o seu recado
nunca recebido
pois que pensa uma incelença
e pedirá licença em silêncio límpido.
abre a Porta do Céu
meu AMOR vai subir
o Arcano Gabriel
a espada
a espera
o espírito
quando a Virgem o vir.
PLAYLIST
2
música de
concerto
ABOIO E DISPARADA
– Obra dividia em dois momentos: Aboio homenageia a estética
micropolifônica do compositor húngaro György Ligeti. Disparada tem influência de Villa-Lobos e do compositor russo Alfred Schnittke.


TOCAIA
– Composição imagética para flauta, acordeom, violino e violoncelo. Propõe-se uma alucinação sonora dos últimos momentos de Lampião e seu bando.
HUBRIS CABOCLA
– Peça inspirada na música dos ternos de pífanos. Criada para uma combinação instrumental bastante inédita: 2 pífanos, 2 violoncelos, trombone baixo e percussão.


ALQUIMIA DA ZABUMBA
– Peça eletroacústica que usa apenas sons extraídos de uma zabumba com baquetas, mãos e bolinhas de gude.
Ficha Técnica
Coordenação Geral: Victor Luiz / Armando Lôbo
Compositor, Direção Musical e Direção Artística: Armando Lôbo
Capa , Fotografias e Coordenação Visual: Victor Luiz
Produção Executiva: Liliane Vieira
Assessoria de Produção e Direção Artística: Manassés Bispo
Assistente de Produção: Marília Santos
Programação Visual e Social Media: Victor Luiz
Assessoria de Imprensa: Carlos Eduardo Amaral e Fábio Cezanne
Gravado no estúdio Carranca por Vinícius Aquino e Marco Melo.
Playlist 1-
Mixagem: Armando Lôbo
Masterização: Felipe Tichauer
Playlist 2 -
Mixagem: Armando Lôbo
Masterização: Homero Lotito
O álbum audiovisual foi dirigido e editado por Armando Lôbo. Participação de
Marcela Rabelo e Isaac Souza (artistas da dança), e Romero Rodrigues (vaqueiro) . Filmado pelo Estúdio Casona
(Cristiano Bivar).
1. Sertão Satori (Armando Lôbo)
2. A Fera do Sol (Armando Lôbo)
3. Veneno Bento (Rodrigo Zaidan e Armando Lôbo)
4. A Morte do Vaqueiro (Luiz Gonzaga e Nelson Barbalho)
5. Abismo (Armando Lôbo)
6. Disparo (Armando Lôbo)
7. Incelenças (Luciano Garcez)
Músicos Playlist 1 (música popular)
Armando Lôbo – vocais, guitarras, programação e arranjos. / Surama Ramos – vocais / Luiza Fittipaldi – vocais / Sue Ramos – vocais / Felipe Costta – acordeom / Nelson Brederode - cavaquinho / Hugo Linns – viola dinâmica / Hélio Silva – contrabaixo elétrico / Hugo Medeiros – bateria / Gilú Amaral – percussão / Trombones – Nilsinho Amarante, Marcone Túlio e Thomas Barros / Violoncelos – Nilson Galvão, Herlane Franciele e Fernando Junior / Contrabaixo acústico – Ítalo Ferreira
8. Aboio e Disparada (Armando Lôbo)
9. Tocaia (Armando Lôbo)
10. Hubris Cabocla (Armando Lôbo)
11. Alquimia da Zabumba (Armando Lôbo)
Músicos Playlist 2 (música de concerto)
Armando Lôbo – composição, programação eletroacústica e direção musical / Felipe Costta – acordeom / Rogério Acioli - flauta / Henrique Albino – pífanos / Karolayne Cavalcante - violino / Nilson Galvão e Herlane Franciele – violoncelos / Thomas Barros – trombone baixo / Antonio Barreto e Rodrigo Patropi - percussões / St Petersburg Studio Orchestra – orquestra de cordas em Aboio e Disparada
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